Proparoxítonas aparentes: só APARENTAM!

August 14, 2018

      Como você separaria as sílabas de palavras como “série”, “prédio” ou “história”? São paroxítonas ou proparoxítonas? E como justificar os seus acentos? É só ler esse artigo e

descobrir!

Antes de falarmos das “proparoxítonas aparentes”, vamos relembrar, rapidamente, as classificações em relação à tonicidade (já que usaremos esses nomes durante nosso artigo):

 

Oxítonas: palavras que possuem a última sílaba tônica (forte) – ba-Ú, jar-DIM, pa-PEL, pro-fes-SOR, an-DAR

 

Paroxítonas: palavras que possuem a penúltima sílaba tônica (forte) – ca-mi-SE-ta, O-lho, ma-ça-NE-ta, hip-no-te-ra-PEU-ta, pe-da-go-GI-a

 

Proparoxítonas: palavras que possuem a antepenúltima sílaba tônica (forte) – ÁR-vo-re, MÁ-gi-co, pa-ra-le-le-PÍ-pe-do, gra-MÁ-ti-ca, ÚL-ti-ma

 

Também será necessário lembrarmos dos conceitos de DITONGO e HIATO:

 

Ditongo: dois fonemas vocálicos na mesma sílaba – á-gUA, sAU-da-de, cOI-ce

 

Hiato: duas vogais juntas na palavra, mas em sílabas separadas – rU-A, sA-Ú-de, rO-E-la

 

                O que determina, portanto, se o encontro vocálico será separado ou não é força da pronúncia. Nos ditongos, há uma vogal (mais forte) e uma semivogal (mais fraca); nos hiatos, ambos os fonemas são vogais, pois são pronunciados com força – justamente por isso ficam em sílabas separadas.

 

                Até aí tudo bem. Uma das dúvidas muito comuns na separação silábica aparece nas palavras em que há um ditongo crescente (aqueles em que a semivogal vem antes da vogal) no final da palavra. Seriam eles considerados ditongos ou hiatos?

 

Ditongo crescente: a semivogal vem antes da vogal. Exemplo: guarda. Perceba que o “u” é pronunciado de modo mais fraco que o “a”. Dizemos, então, que o primeiro é a semivogal e o segundo é a vogal.

 

Ditongo decrescente: a vogal vem antes da semivogal. Exemplo: pai. O “a” tem a pronúncia mais forte, vindo antes da semivogal “i”.

 

                Para deixar mais claro, vamos analisar as palavras “série”, “prédio” e “história”. Seriam elas separadas como “sé-rie”, “pré-dio” e “his-tó-ria” (sendo paroxítonas e terminando com ditongo crescente), ou como “sé-ri-e”, “pré-di-o” e “his-tó-ri-a” (sendo proparoxítonas e terminando com um hiato)?

 

                Os dicionários, inclusive o VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), registram tais palavras da seguinte maneira:

 

                sé.ri:e      pré.di:o   his.tó.ri:a

 

                Esses “dois pontos” entre as duas letras finais indicam, justamente, a possibilidade de variação de pronúncia, deixando o “i” fraco (semivogal de um ditongo crescente) ou forte (como vogal, formando um hiato com a vogal seguinte).

                A flexibilização da pronúncia é muito utilizada, por exemplo, por poetas que, ao estabelecerem uma certa quantidade de sílabas para o verso, contam com a pronúncia forte para garantir a métrica da obra. Além disso, há a questão de diferença de sotaque entre o português brasileiro e o europeu, que também pode acarretar essa variação de tonicidade.

 

                Chegamos, então, ao motivo desse post! As proparoxítonas aparentes são as paroxítonas terminadas em ditongo que podem ser pronunciadas como proparoxítonas, aparentando pertencer a este último grupo. Veja: eu disse aparentando pertencer e não efetivamente pertencendo.

 

                Mas afinal, são ou não classificados como proparoxítonas, caso eu separe as vogais finais, formando um hiato?

 

                Como o assunto é polêmico, vamos ver o que dizem alguns gramáticos de referência sobre essa separação silábica:

 

                É importante, porém, esclarecer que, mesmo havendo a flutuação em relação à pronúncia, a convenção ortográfica tem as suas bases. E é isso que veremos:

               

                José Carlos de Azeredo, autor da Gramática Houaiss da Língua Portuguesa, na seção 16.16, dá como exemplo de ditongo a palavra “água” (separando “á-gua”), mas ressalta, um pouco mais à frente: “há flutuação entre hiato e ditongo no encontro de duas vogais átonas em final de palavra, se a primeira delas for /i/ ou /u/: história, óleo, tênue, lírio, vácuo, série”.

                Vê-se que, em momento algum, o autor classifica as palavras como “proparoxítonas”, apenas faz a ressalva em relação à pronúncia como ditongo ou como hiato.

 

                Evanildo Bechara, em sua Moderna Gramática da Língua Portuguesa, ao falar de encontros vocálicos, exemplifica os ditongos crescentes com “glória”, “pátria”, “cárie”, “calvície”, “médio”, “água”, “mágoa”, “tênue”, não deixando de observar: “palavras como série, glória, que podem ser proferidas como dissílabas (mais usual) ou trissílabas, não têm os encontros vocálicos separados na divisão silábica: sé-rie, gló-ria.”

                Bechara nos deixa ainda mais claro que a flutuação se dá ao proferir a palavra, ressaltando que isso não faz com que os vocábulos sejam separados na divisão silábica (ou seja, aparentariam ser proparoxítonas, mas se mantêm como paroxítonas na separação silábica).

 

                Celso Cunha não faz diferente. Em sua Nova Gramática do Português Contemporâneo, o autor nos diz que: “não se separam as letras com que representamos os ditongos e os tritongos, bem como os grupos ia, ie, io, ao, ua, eu, e uo, que, quando átonos finais, soam normalmente numa sílaba (ditongos crescentes), mas podem ser pronunciados em duas (hiato):

Gló-ria     Cá-rie    Má-rio    Má-goa    Ré-gua     Tê-nue     Con-tí-guo

                Mais uma vez, vemos a ressalva em relação à variação de pronúncia, mas a clareza em relação a não se separar as sílabas na grafia.

 

                Ernani Terra fala da acentuação de paroxítonas terminadas em ditongo oral exemplificando com as palavras história, cáries, infância e tréguas. Também ressalta a possibilidade de conversão de ditongo em hiato, destacando que essa ocorrência se dá principalmente na linguagem poética (va-i-da-de, gló-ri-a), explicando, assim, a chamada diérese.

 

                Muitos sites, entretanto, dizem categoricamente que “o novo acordo ortográfico classifica tais palavras como Proparoxítonas”. Vamos, então, ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa:

               

                No item c, do 2º ponto da Base VII, tratando sobre ditongos, o Acordo diz o seguinte: “além dos ditongos orais propriamente ditos, os quais são todos decrescentes, admite-se, como é sabido, a existência de ditongos crescentes: áurea, espécie, exímio, mágoa, míngua, tênue, tríduo”.

                Não deixando dúvidas de que os encontros vocálicos aos finais dessas palavras são tratados como ditongos, sendo as palavras, portanto, paroxítonas terminadas em ditongo oral.

 

                No item 5 da base XX, ao dar exemplos de separação silábica de tais encontros duvidosos, constam as separações á-gua, am-bí-guo e lon-gín-quos”, reforçando o seu tratamento como ditongo.

 

                Um pouco mais à frente, estabelecendo as normas ortográficas de acentuação gráfica, podemos ver: “levam acento agudo ou circunflexo os vocábulos terminados por ditongo oral átono, quer decrescente ou crescente”, tendo como exemplo, dentre outras, as palavras ignorância, imundície, lírio, mágoa, régua, tênue.

               

                Obviamente, o Acordo Ortográfico de 1990 também ressalta a possibilidade de variação de pronúncia, e é aí que, no item 1b da base XI, temos os exemplos série, enciclopédia, glória e barbárie classificados como Proparoxítonas Aparentes. Reforço a classificação que consta no acordo: proparoxítonas aparentes, e não apenas proparoxítonas, o que é muito diferente...

 

Proparoxítonas aparentes: paroxítonas que, por apresentarem uma possível variação de pronúncia, podem parecer proparoxítonas.

 

Proparoxítonas: palavras que efetivamente têm como tônica a antepenúltima sílaba.

 

                Bem, como sou teimoso (afinal, minha função é “escarafunchar” isso ao máximo, para não deixar dúvidas para você), ainda escrevi para a Academia Brasileira de Letras (por meio da seção ABL responde, disponível no site da instituição) perguntando sobre como eles veem a questão. A resposta que tive foi categórica:

 

 

Algumas palavras terminam num ditongo crescente, encontro vocálico instável, pois apresenta certa flutuação na pronúncia, na fala: às vezes é pronunciado como ditongo, às vezes como hiato. É por isso que certos dicionários, ao fazerem a separação silábica de palavras com tal tipo de encontro vocálico, usam dois-pontos em sua separação, em vez de hífen ou de um ponto, como é o usual na separação silábica: gló.ri:a, sé.ri:e, ci.ên.ci:a, re.ló.gi:o, an.fí.bi:o, sé.ri.:e, á.gu:a, etc. São paroxítonas terminadas em ditongos crescentes. O novo Acordo Ortográfico classifica-as como proparoxítonas aparentes, e sua regra de acentução está na Base XI, 1º, b) e 2º, b). A separação deve ser feita como ditongo: an-fí-bio, sé-rie, á-gua.

 

 

                Só posso entender, portanto, que afirmar (como dizem muitos sites por aí) que “o acordo ortográfico classifica como proparoxítonas” acaba induzindo a uma "verdade" bem questionável...

 

                Ainda bem que você não se contenta com pouco e quer mais do que um “achismo”: quer ver o que realmente dizem os gramáticos! Pois aí está!

 

                E, para justificar os acentos tônicos das palavras série, prédio e história: paroxítonas terminadas em ditongo oral crescente.

 

                 Espero ter deixado claro! Continue sempre por aqui! Ah, e estou esperando por você no Youtube, no Instagram, no Face... se você está comigo, não aceito menos do que ver você gabaritar a sua próxima Prova de Português!

 

 

            Grande abraço e bons estudos!

 

 

           Caco Penna

 

                EM TEMPO: Se, por acaso, você não entendeu por que tem um pote de DENOREX na miniatura deste post, provavelmente você tem menos de 30 anos... mas pode entender a referência clicando aqui:

 

 

 

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