Técnicas avançadas de redação: coordenadas e subordinadas

February 22, 2019

             Este texto é o terceiro de uma série de artigos sobre redação:

 

Texto 1: Como usar a DEDUÇÃO e a INDUÇÃO na redação: 

https://www.provadeportugues.com.br/single-post/2019/02/06/Como-usar-a-DEDU%C3%87%C3%83O-e-a-INDU%C3%87%C3%83O-na-reda%C3%A7%C3%A3o

 

Texto 2: O Parágrafo padrão - a retórica da Dissertação: 

https://www.provadeportugues.com.br/single-post/2019/02/12/O-par%C3%A1grafo-padr%C3%A3o-a-ret%C3%B3rica-na-disserta%C3%A7%C3%A3o

 

 

          USAR COORDENADAS OU SUBORDINADAS NA REDAÇÃO?

         

            O conhecimento das orações coordenadas e subordinadas vai muito além da simples “classificação”. O que realmente é importante a respeito dessas estruturas e, principalmente, como trabalhar com elas na redação?

                Bem, primeiramente vamos lembrar o que significa dizer que uma oração é coordenada ou subordinada.

                Imagine o organograma de uma empresa:

 

               

 

                Como sabemos, quem está em cima manda, e quem está embaixo (se tiver juízo, como dizem!) obedece. Temos aí uma relação de subordinação: um principal, o responsável pela função, e um subordinado, auxiliando na tarefa.

                Imagine, porém, os dois da parte de baixo, lado a lado. Um não manda no outro, porém, eu posso colocá-los para trabalharem juntos, dividindo uma tarefa: um fará uma parte, o outro fará outra parte e, ao final, juntos, eles comporão um todo.

 

                Assim como na relação entre duas pessoas só existem essas duas opções (ou uma está hierarquicamente acima da outra, ou ambas estão em pé de igualdade), entre as orações dentro de um período também: ou há uma principal e uma subordinada, dando-lhe um suporte sintático-semântico; ou as duas estão lado a lado, emparelhadas, em pé de igualdade.

                No primeiro caso, teremos uma relação de subordinação (sendo uma subordinada à outra, principal); no segundo, teremos uma relação de coordenação (nesse caso, as duas serão coordenadas entre si, estando no mesmo “nível hierárquico”).

 

                Caso você queria se lembrar das relações de subordinação e seus valores semânticos (ponto importantíssimo para a aplicação da estratégia que vamos ver hoje), assista a essa live, na qual explico as relações de subordinação adverbial:

 

 

 

                Muito bem, mas como isso tudo pode ser usado em uma dissertação?

 

             

         USO DAS ORAÇÕES COORDENADAS NA DISSERTAÇÃO

 

                Bem, duas orações coordenadas não possuem muita flexibilidade argumentativa, uma vez que temos apenas duas opções de disposição das orações:

               

                Ideia 1 – Ideia 2

                Ideia 2 – Ideia 1

 

                No caso de Orações Coordenadas aditivas ou alternativas, a mudança de ordem, geralmente, não influencia na relação semântica, sendo apenas uma opção de escolha (considerando o fluxo da argumentação que se seguirá):

 

Jurema trabalha de dia e estuda de noite.

Jurema estuda de noite e trabalha de dia.

 

Ou ela trabalha, ou ela estuda.

Ou ela estuda, ou ela trabalha.

               

 

                Já em sentenças coordenadas adversativas, a inversão da posição dos elementos altera a ênfase semântica, ou seja, qual ideia é mais forte no período.

 

Adhemar rouba, mas faz.

Adhemar faz, mas rouba.

 

O Brasil declarou sua independência política, mas continua uma colônia econômica.

O Brasil continua uma colônia econômica, mas declarou sua independência política.

 

 

    OBS: caso não se lembre das orações adversativas e da diferença entre elas e as orações concessivas (das quais falaremos em breve), você pode assistir a este vídeo de 1 minuto:



               

 

                Algumas vezes, a própria sequência das ideias já limita o uso das coordenadas em uma única possibilidade de ordenação:

 

Jurema ficou noiva em junho e casou-se em dezembro. (Como há uma relação lógico-temporal, não se diria que ela “casou-se em dezembro e ficou noiva em junho”)

 

 

                Outras vezes, a alteração da sequência altera a relação estabelecida entre elas:

 

Vá devagar, pois o caminho é perigoso. (explicação)

O caminho é perigoso, portanto vá devagar. (conclusão)

 

                Pois bem, vemos que, ao utilizarmos das relações de coordenação, a independência semântica das orações limita a nossa capacidade de relacioná-las argumentativamente.

 

                O que podemos, porém, fazer com as relações de subordinação?

 

 

             USO DAS ORAÇÕES SUBORDINADAS NA DISSERTAÇÃO

 

                Bem, como vimos, as subordinadas estarão ligadas a uma oração principal. Mais do que uma “classificação”, a oração principal de fato é a responsável pela informação mais importante do período, aquela que terá um destaque semântico.

                Deste modo, é possível que a oração subordinada apareça antes ou depois da principal, sem lhe alterar a ideia, dando-nos maior opção no desenvolvimento do raciocínio escrito.

 

                 Vamos trabalhar, para fins de exemplos iniciais, a relação entre duas ideias (as quais chamaremos de “ideia 1” e “ideia 2”). A maior possibilidade de uso se dará justamente pelo fato de podermos deixar uma ou outra na oração principal, chegando, portanto, a quatro possibilidades de construção sintática:

 

                Ideia 1 na oração principal – Ideia 2 na oração subordinada

                Ideia 2 na oração subordinada – Ideia 1 na oração principal

                Ideia 2 na oração principal – Ideia 1 na oração subordinada

                Ideia 1 na oração subordinada – Ideia 2 na oração principal

 

                Vejamos na prática:

                Vamos resgatar o exemplo que vimos de Oração Coordenada Adversativa, que nos permitia apenas duas possibilidades de construção (mesmo que com alteração de sentido):

 

Adhemar rouba, mas faz.

Adhemar faz, mas rouba.

 

                Caso trabalhemos essa ideia com subordinação concessiva, teremos 4 possibilidades (duas para cada sentido). Acompanhando a sequência que descrevi acima, vamos considerar:

 

Ideia 1 – Adhemar rouba

Ideia 2 – Adhemar faz

 

Ideia 1 na oração principal – Ideia 2 na oração subordinada

Adhemar rouba, apesar de fazer.

 

Ideia 2 na oração subordinada – Ideia 1 na oração principal

Apesar de fazer, Adhemar rouba.

 

Ideia 2 na oração principal – Ideia 1 na oração subordinada

Adhemar faz, apesar de roubar.

 

Ideia 1 na oração subordinada – Ideia 2 na oração principal

Apesar de roubar, Adhemar faz.

 

 

                Perceba que – mais uma vez, diferentemente do que observamos nas coordenadas – a ordem de apresentação das ideias não é relevante, prevalecendo, sim, a construção sintática, enfatizando a ideia presente na oração principal, independentemente de se ela está posta antes ou depois da subordinada.

 

 

                Vamos a outro exemplo:

 

O Brasil declarou sua independência política, apesar de continuar uma colônia econômica.

(Foco na independência política, a ideia da oração principal)

 

Apesar de continuar uma colônia econômica, o Brasil declarou sua independência política.

(Foco na independência política, a ideia da oração principal)

 

O Brasil continua uma colônia econômica, apesar de ter declarado sua independência política.

(Foco na colônia econômica, a ideia da oração principal)

 

Apesar de ter declarado sua independência política, o Brasil continua uma colônia econômica.

(Foco na colônia econômica, a ideia da oração principal)

 

 

                Até mesmo estruturas em que há uma sequência temporal, podemos trabalhar diversas opções, enfatizando uma outra ideia:

 

Jurema ficou noiva em junho e casou-se em dezembro. (A relação de coordenada aditiva, neste caso, nos permite apenas essa construção, não havendo ênfase em nenhuma das duas ideias).

 

                    Como ficaria se trabalhássemos com a subordinação?

 

Como ficou noiva em junho, Jurema casou-se em dezembro.  (A ênfase semântica recai sobre a ideia do casamento, sendo a ideia do noivado trabalhado em uma oração subordinada adverbial causal)

 

Jurema casou-se em dezembro, já que ficou noiva em junho. (A Oração Causal foi posta depois da principal; a ênfase permanece na ideia do casamento.)

 

Para casar-se em dezembro, Jurema ficou noiva em junho. (A ênfase agora recai sobre o noivado, a ideia do casamento está em uma Subordinada Adverbial Final – indicando finalidade.)

 

Jurema ficou noiva em junho, para casar-se em dezembro. (A inversão das orações não tira a ênfase semântica da Oração Principal.)

                Apenas para exemplificar uma situação corriqueira de uso, imagine a seguinte situação:

 

- Quando Jurema se casou?

- Jurema casou-se em dezembro, já que ficou noiva em junho.

 

- Jurema ficou noiva por muito tempo?

- Para casar-se em dezembro, Jurema ficou noiva em junho.

 

                Vê-se que responder a primeira pergunta com a segunda resposta (ou vice-versa) geraria certo estranhamento, já que se daria ênfase a uma informação diferente daquela que foi solicitada na pergunta.

 

                Apesar de não alterar a ênfase semântica, a ordenação das orações vai ser importante ao se considerar o encadeamento semântico da argumentação.

 

                   

                     PERÍODO FROUXO  X  PERÍODO TENSO

 

               Quando deixamos a oração principal (logo, a ideia que está enfatizada na sentença) antes da subordinada, diremos que tempos um PERÍODO FROUXO (já que a informação mais importante foi dada antes das outras que lhe darão suporte).

                Quando deixamos a oração subordinada antes da principal, “guardando” a informação mais importante para o final, teremos o PERÍODO TENSO.

 

 

O Brasil continua uma colônia econômica, apesar de ter declarado sua independência política. (período frouxo)

 

Apesar de ter declarado sua independência política, o Brasil continua uma colônia econômica. (período tenso)

 

 

                A “melhor ordem” será aquela mais enquadrada no fluxo argumentativo em questão.

 

 

                  TRABALHANDO COM MAIS DE DUAS ORAÇÕES:

 

                Bem, a partir dessa estratégia de se deixar a ideia principal na oração principal, podemos trabalhar, claro, com mais de duas orações. Veja a diferença expressiva que temos no exemplo a seguir:

 

                Vamos considerar as três ideias:

 

1.  A solidão total traz prejuízos emocionais aos seres humanos.

2. Os prejuízos emocionais geram consequências negativas no trabalho e no lazer.

3. O homem precisa ficar sozinho às vezes.

 

                Em cada uma das estruturas abaixo, uma delas estará na oração principal e as outras trabalhadas em subordinadas:

 

1 – Apesar de o homem precisar ficar sozinho às vezes, a solidão total lhe traz prejuízos emocionais, por gerar consequências negativas no trabalho e no lazer.

 

2 – Apesar de o homem precisar ficar sozinho às vezes, os prejuízos emocionais, resultantes da solidão total, geram-lhe consequências negativas no trabalho e no lazer.

 

3 – Apesar de os prejuízos emocionais, frutos da solidão total, gerarem consequências negativas no trabalho e no lazer, o homem precisa ficar sozinho às vezes.

 

 

                Mais uma vez, as ideias desenvolvidas são as mesmas, mas, dependendo de qual for a tese a ser desenvolvida, optarei por uma ou outra construção.

 

               Entenda mais sobre a importância da TESE e saiba como construí-la, assistindo a este vídeo:

 

 

 

                Por isso sempre bato na tecla: estudar gramática não é decorar nomes, é entender estruturas! Somente assim estaremos fazendo bom uso do conhecimento teórico, evoluindo nossa prática de leitura e escrita!

 

                Grande abraço, e bons estudos!

 

    Caco Penna

               

               

 

                 

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